Introdução

O presente relatório investiga a relação entre o efeito Rashomon – fenômeno em que diferentes pessoas têm interpretações conflitantes de um mesmo evento – e o narcisismo patológico no contexto clínico. Busca-se compreender se, e de que forma, características do transtorno de personalidade narcisista podem levar a distorções subjetivas da realidade análogas ao efeito Rashomon. Serão abordadas teorias psicanalíticas clássicas e contemporâneas, bem como estudos clínicos e artigos relevantes, para elucidar como o narcisismo patológico pode fazer com que cada indivíduo “conte sua própria versão” dos fatos. Ao final, espera-se evidenciar que a psicodinâmica narcisista – marcada por defesa do ego, manipulação e autoengano – contribui significativamente para interpretações divergentes e conflitantes da realidade.

Efeito Rashomon: Realidade Subjetiva e Narrativas Conflitantes

O termo “efeito Rashomon” origina-se do filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, no qual um mesmo incidente (um crime) é narrado de maneiras diferentes e contraditórias por várias testemunhas. Em essência, o efeito Rashomon ilustra que a “verdade” pode depender do ponto de vista de cada observador, já que cada personagem conta a história segundo sua visão singular . No âmbito psicológico, este fenômeno refere-se à maneira como percepções subjetivas, memórias e vieses cognitivos levam indivíduos distintos a recordar ou interpretar um mesmo evento de formas divergentes. Fatores como experiências prévias, emoções e interesses pessoais podem influenciar drasticamente a versão dos fatos que cada pessoa constrói. Assim, duas pessoas podem relatar um evento comum com diferenças substanciais – não necessariamente por má-fé, mas porque cada mente filtra a realidade à sua maneira.

No contexto clínico e das relações interpessoais, o efeito Rashomon pode manifestar-se, por exemplo, em depoimentos conflitantes de familiares sobre um acontecimento ou em discrepâncias de memória entre paciente e terapeuta sobre sessões anteriores. Geralmente, essas divergências decorrem de processos subjetivos inconscientes – como memória reconstrutiva e vieses de confirmação – que fazem com que cada indivíduo acredite sinceramente em sua versão. Entretanto, quando tais distorções da realidade são sistemáticas e extremas, desconsiderando fatos objetivos de forma a favorecer consistentemente uma das partes, é importante investigar possíveis fatores psicopatológicos subjacentes. Nesses casos, o narcisismo patológico destaca-se como um transtorno em que a distorção da realidade pode ser especialmente pronunciada e funcional para o indivíduo, contribuindo para situações típicas do efeito Rashomon.

Narcisismo Patológico: Visão Geral

O transtorno de personalidade narcisista (TPN) é caracterizado por um padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia. No contexto diagnóstico (DSM-5), pessoas com narcisismo patológico tendem a exagerar suas realizações e talentos, sentir-se especiais ou superiores sem base correspondente, e vivem imersas em fantasias de sucesso ilimitado, poder, beleza ou amor ideal . Elas frequentemente acreditam que merecem tratamento privilegiado e têm expectativas desarrazoadas de favorecimento por parte dos outros. Além disso, exibem baixa empatia, explorando relações interperssoais em benefício próprio, e podem menosprezar ou depreciar aqueles que consideram “inferiores” . Por trás da máscara de extrema confiança e arrogância, entretanto, costuma haver uma autoestima frágil: o narcisista é altamente sensível a críticas ou contrariedades, sentindo-se humilhado ou injuriado com facilidade . Essa disparidade entre a imagem inflada que projeta e a vulnerabilidade interna gera tensões psicológicas que o indivíduo tenta administrar por meio de diversas defesas psicológicas.

Do ponto de vista teórico, o conceito de narcisismo foi inicialmente delineado por Sigmund Freud (1914) como um fenômeno normal do desenvolvimento psicossexual (narcisismo primário) que, se fixado ou regressivo, poderia dar origem a patologias. Freud notou que, no narcisismo, a libido é investida no self em vez de objetos externos, o que em casos extremos pode levar a um afastamento da realidade. Posteriormente, teóricos psicanalíticos aprofundaram a compreensão do narcisismo patológico. Heinz Kohut (1971), fundador da psicologia do self, propôs que falhas de empatia e de “espelhamento” por parte dos cuidadores na infância levavam a um self fragmentado, fazendo com que a criança adotasse uma fantasia grandiosa de si mesma como forma de manter coesão e valor próprio. Em outras palavras, fantasias de onipotência e perfeição surgiriam como compensação por uma sensação interna de vazio ou inadequação. Já Otto Kernberg (1975), teórico das relações objetais, descreveu o narcisismo patológico como resultante de uma integração defeituosa das representações de self e dos outros. Para Kernberg, o indivíduo com TPN desenvolve um “self grandioso” irrealista, uma construção que agrupa todas as qualidades positivas idealizadas de si e dos outros, formando uma autoimagem exageradamente superior . Qualquer experiência ou informação que ameace essa imagem grandiosa – por exemplo, fracassos, críticas ou imperfeições – é “splitada” (dividida) ou projetada para fora do self . Em outras palavras, aspectos negativos são expulsos da consciência: ou negados e isolados, ou atribuídos a outras pessoas (que passam a ser vistas como completamente “más” ou depreciadas). Esse arcabouço teórico já sugere que a percepção de realidade do narcisista é seletiva: ele acolhe apenas as partes da realidade que confirmam sua superioridade e rejeita ou distorce aquelas que trazem frustração, culpa ou vergonha.

Mecanismos Narcísicos de Distorção da Realidade

Indivíduos com narcisismo patológico lançam mão de diversos mecanismos de defesa para proteger sua autoestima e construir uma narrativa coerente com sua autoimagem inflada. Muitos desses mecanismos envolvem distorcer a realidade, seja internamente (autoengano genuíno) ou externamente (manipulação das percepções alheias). Entre os principais mecanismos implicados, destacam-se:

Em suma, os narcisistas patológicos “seguram a realidade à distância” e a filtram para que se conforme aos seus desejos e à sua autoimagem . Acrescente-se a isso um senso de direito exagerado e falta de empatia, e tem-se uma personalidade predisposta a negar, distorcer e manipular fatos de maneira egoísta . Como resume Julie Hall (2021), essas distorções recorrentes acabam se tornando um tipo de autoengano crônico: o narcisista ignora percepções acuradas e as substitui por versões distorcidas preferenciais . Desse modo, a narrativa interna que o narcisista constrói sobre sua vida frequentemente se afasta bastante da realidade compartilhada. Ele acredita nessa narrativa e espera que os outros acreditem também – e quando isso não acontece, conflitos surgem.

Narcisismo Patológico e o “Efeito Rashomon” na Clínica

Diante de todos esses mecanismos de distorção, fica evidente como o narcisismo patológico pode gerar situações compatíveis com o efeito Rashomon. O narcisista e as outras pessoas envolvidas em um mesmo acontecimento podem ter “realidades” radicalmente diferentes e inconciliáveis sobre o que ocorreu. No contexto clínico ou terapêutico, isso se manifesta, por exemplo, quando um paciente com traços narcisistas traz para a sessão seu relato de um conflito familiar completamente discrepante daquele apresentado pelos demais familiares. Cada qual parece viver uma história distinta: uma versão heroica e isenta de falhas do lado do narcisista, e uma versão frequentemente mais próxima dos fatos (porém incrédula diante das distorções do narcisista) do lado das vítimas ou observadores neutros.